Thursday, January 10, 2008

Ah sim, o final.


Não foram feitas somente estas entrevistas nas duas últimas semanas, falei também com o pessoal da segurança (que são constantemente "homenageados" em pichações nos banheiros da universidade. Ainda vou escrever sobre isso) e outras pessoas que achei que estariam (e realmente estavam) diante da mesma situação e as histórias se repetem. Olhando esse horizonte estreito, pode-se imaginar que isto não é algo que acontece no universo das ruas fora dos muros. Mas, olhando que o já foi feito por outras pessoas, pode-se dizer que tudo de ruim que acontece lá fora se perpetua no microcosmo universitário.No caso da PUC, percebe-se que mesmo num lugar onde todos (ou quase todos) tem um articulado discurso de inclusão social via universidade,onde o capital intelectual e as práticas de cidadania são tão "prezadas", as histórias relatadas assumem um contorno ainda mais bizarro. Para terminar, para quem conhece a supracitada universidade sabe que ela é basicamente dividida em dois grandes "feudos": a Comfil e a FEA. Pois bem, ideológicamente (pelo menos da boca pra fora) esses dois grupamentos de cursos possuem idéias politico-sociais antagônicas, mas parecem dividir muitas coisas em comum por mais que tentem negar.

Com a palavra, de novo, a dona Maria (aquela da história da "mira torta"):"Sempre falam que alunos da Comfil e da FEA são diferentes, mas só se for no jeito de se vestir. Essa moçada é tudo igualmeu filho. As vezes ouço eles falando que um é diferente do outro, mas fazem as mesmas coisas quando acham que ninguém está vendo. Eu estou lá, mas não conto né? A gente não é assim 'tão gente' para fazer diferença para vocês."Um pouco constragindo, por me sentir incluído no "vocês" me despedi da dona Maria. Agora que que a vejo acumprimento, aos outros também, pelo menos com um breve aceno de cabeça. Talvez para ser menos invasivo em minha demonstração de solidariedade, talvez porque eu também sofra do mesmo mal de todos e só agora percebi.

Thursday, December 13, 2007

Invisíveis - parte 3


Cigarro na mão é vendaval

De acordo com o que se sabe sobre invisibilidade social, vista aos olhos de estudos psicológicos,as respostas dessas pessoas confirmam algumas teses. Uma: explicar o que ocorre (no caso específico dessa matéria) na universidade: a indiferenciação na percepção dos indivíduos. As pessoas estariam tão familiarizadas com o ambiente que ele não produziria qualquer tipo de estímulo nelas. Para quem é paulistano só se lembrar da região da Praça da Sé ou os arredores da Luz. Nesse caso especificamente o pessoal da limpeza e até da segurança, fazem parte da "paisagem" e não são reconhecidos como indivíduos. Além disso, nossa cultura, permeada de valores capitalistas, atribuem qualidade às pessoas na medida de suas posses materiais. Quem está numa posição sócio-econômica superior sente-se naturalmente propenso a agir dessa forma, é o que o sociólogo Jessé de Souza, inspirado em Bourdieu, chama de habitus primário. Seria algo que está tão interiorizado em nós,que o tomamos como normal e,de fato, por esse ponto de vista o é. Toda a teoria respeito dessa realidade foi, fartamente, explorada nos oito anos em que o psicólogo Fernando Braga Costa passou trabalhando na varrição do campus da USP em São Paulo. Durante esse tempo ele realizava a varrição até três vezes por semana e nunca reconhecido por professores ou colegas de sala, pois simplesmente era ignorado.Ele tem uma certa visão marxista desse processo, pois o vê claramente como uma manifestação da divisão social no trabalho. Ainda diz que, nesse nível de atividade, as pessoas acabam se equiparando a ferramentas e são vistas como tal pela sociedade.

Na prática as entrevistas confirmam as palavras dele. Enquanto eu observava os alunos aguardando a chegado de um professor, percebi que alguns jogavam as pontas dos cigarros no chão com uma naturalidade que me deixava constrangido, pois o lixo estava a poucos metros e uma das pessoas da limpeza estava varrendo o corredor naquele momento."Acho que ela roubou seu cigarro", disse para a pessoa que jogou a bituca no chão, sobre o fato de Mara ter jogado a bituca no lixo. "Ah, é mesmo. Mas estava aceso não dava para jogar no lixo mesmo", disse a pessoa.Bem a conversa não resistiu a esse diálogo surreal e parti atrás da senhora que limpava aquele corredor. "Você viu quem jogou o cigarro no chão?", perguntei. "Vi sim, mas nem reclamo", respondeu. Ela disse que uma vez falou com um outro aluno sobre esse "hábito", que segundo ela é bem comum, e ouviu como responta: "Eu sei querida, ainda bem que a gente te paga, né?". Pela segunda vez em cinco minutos fiquei com vergonha em ser do corpo discente dessa mesma faculdade. “Agora já nem ligo, não faz diferença para ninguém, não vou ficar tomando umas respostas assim dessa criançada. O pior é que, não sei porque, boa parte nem fuma o cigarro todo, joga metade fora. Pegar bituca é um saco, se pelo menos eles fumasem até o fim dava menos trabalho’, completou”.


A seguir: Até que em fim...o fim!

Monday, December 03, 2007

Problema com os comentários

Acho que o blogger resolveu funcionar. A continuação de Invisíveis fica para o dia 06/12
Abraços.

Wednesday, November 28, 2007

Invisíveis - parte 2: Problema de mira

Os nomes das pessoas que participaram dessa matéria foram trocados ou omitidos para preservar suas identidades.

“Não dá para você fazer outro tipo de pergunta?”, me indaga Maria, 41 anos, voz cansada e mãos calejadas. O que a deixou com cara de poucos amigos, foi minha insistência em perguntar se os alunos da universidade a tratam como se ela não existisse e os sentimentos dela a respeito disso. Ela trabalha para uma das empresas terceirizadas que prestam serviço à universidade na área de limpeza. “Olha, não é que eu não queira responder, filho. É que aqui quase todo mundo já é quase doutor, então normal ninguém dar muita trela pra gente”. Confirmo que isso deve ser realmente corriqueiro, mas nem por isso devia ser tratado como um fato normal.

Como parecia que ela realmente não queria papo, usei um caminho pouco ortodoxo para que ela se sentisse à vontade. “Tem rato na casa da senhora?”, perguntei. “Rato? De vez em quando aparece filho”, ela respondeu. “E a senhora acha normal?” Ao que ela respondeu: “Normal não .Não dá para ficar parada vendo o bicho lá. Por acaso você está chamando os alunos de ratos?”. Respondi que não, mas antes de eu explicar que era somente uma alegoria sobre coisas corriqueiras ela completou: “Acho que se fossem, pelo menos os banheiros seriam mais limpos...” Faço uma cara de que não entendeu o sentido da comparação e ela emenda: "Tomara que você nunca precise limpar banheiro dos outros, essa mulherada não joga papel no lixo e ainda faz outras coisas piores fora do vaso, nem parece um bando de mandames e o pessoal que limpa o banheiro dos homens falam que é quase igual. Será problema de mira?" Concordei com um aceno de cabeça estilo "pode ser né..." e sai um pouco constrangido. Por essa eu não esperava, justo ela que nem o nome queria dizer...

Meu próximo alvo/entrevistado foi, por indicação da dona Maria, o "seu" José que trabalha no prédio da faculdade de comunicação e filosofia, vulgo comfil. Baixo, magrinho, queimado de sol e de pouco conversa também (pelo menos com os alunos). Ele não queria ( e talvez não pudesse) parar alguns minutos e falar comigo. Creio que, na verdade, ele não queria conversa de jeito nenhum, muito menos quando informei sobre o tema da entrevista. “Invisibilidade o quê? Não sei nada disso não?”

Insisti mais um pouco e nada de convencê-lo. Já era tarde (pelo menos para quem iria pegar ônibus-metrô-ônibus) e eu precisava ir embora. Argumentei com ele: “Hoje é quarta, queria chegar mais cedo para ver o jogo do Corinthians. Mas é o único horário que consegui vir falar com o senhor”. Ele parou o que estava fazendo me olho e disse: “Corinthians? Coitado! Está apanhando com hora marcada né? Toda quarta e domingo!” Dei um sorriso amarelo e perguntei novamente se ele já teve a sensação de que os alunos ignoravam sua existência. “Acho que sim, na verdade a única vez que nos percebem é se ninguém faz o serviço. Aí perguntam se tem alguém que limpa mesmo a faculdade ou só ficam enrolando, que a faculdade está sempre suja e coisa e tal...” Trabalho a algum tempo aqui e as pessoas esbarram em mim e fingem que não me viram. Fala sério né..."

Perguntei se ele achava que isso acontecia somente aqui. Parando um pouco para pensar ele comentou: "Acho que é em todo lugar. Quem se acha um pouco mais gente porque não tem que ganhar a vida com serviço braçal fica mais besta." Falei sobre o problema de “mira” que dona Maria me contou anteriormente, ele deu uma risada amarga e disse: "Mira nada, isso é problema de vergonha na cara. Você acha que todo mundo é assim em casa?"

a seguir (02/12): Invisíveis - parte 3: Cigarro na mão é vendaval...

Tuesday, November 27, 2007

Invisíveis

Intro:

Diversas vezes nos últimos anos, principalmente depois que o psicólogo Fernado Braga (autor do livro: Homens Invisíveis – Relatos de uma Humilhação Social) lançou uma luz sobre o assunto, o termo invisibilidade social ,vira e mexe, reaparece na mídia. A maioria das pessoas nunca se deu conta dessa questão (e na verdade nem sabem o que é isso) por que ela faz parte da nossa visão seletiva da realidade.
Nos links espalhados por este post existem algumas experiências sobre o assunto e, iniciando no texto abaixo com continuação nos próximos, vou relatar uma pequena experiência que fiz na PUC/SP.

PS: Estranho usar companheiros de curso como tema para uma matéria, mas foi bem divertido !
PS 2: Qualquer semelhança entre as atitudes relatadas e o que você faz no seu dia-a-dia não será mera coincidência.


Invisíveis - parte 1: O "como assim" das coisas.

Não é a primeira vez que alguém se propõe a prestar atenção em pessoas que, por sua posição social, ocupação ou origem racial, estão à margem do espectro visível social. Essa condição de quase não-existência é, em sua essência, alimentada por todo um projeto de sociedade ideal que só existe em nossas mentes, onde todo trabalho braçal e de baixa qualificação é realizado magicamente. Como? Não tenho a resposta, mas tenho algumas considerações a respeito. Principalmente depois de duas semanas observando o comportamento de alunos da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e entrevistando os autores diários dessas "mágicas".

As matérias que já trataram do assunto o fazem de fora para dentro, é sempre alguém que não interage com os grupos sociais em questão. O que proponho não é o olhar lá adiante e sim ao lado, ao redor, para percebemos que acontecimentos diários a qual nem prestamos atenção estão cheios de significados.


A seguir (28/11): Invisíveis - parte 2: Problema de mira.


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